Guadiana, Sado e Sotavento praticamente sem qualquer capacidade de encaixe. Os cerca de 100 mm previstos para a semana que hoje se inicia vão quase todos escoar rapidamente para o mar, muito pouco se infiltrará (quase todo o país com os solos na capacidade de campo), e o pouco que se vai conseguir encaixar nas albufeiras só ocorrerá porque estas estiveram a descarregar nos últimos dias.
Durante a próxima seca, as centenas de hectómetros cúbicos que se poderiam ter armazenado e que irão parar ao mar vão fazer muita falta. É urgente construir mais albufeiras de grandes dimensões.
Respeito a tua opinião, mas não concordo.
1º) O país precisa de fazer, antes de mais, um uso muito mais eficiente da água. No Algarve, por exemplo, há quilómetros e quilómetros quadrados de relvados (particulares, aldeamentos, municipais,...), autênticos sumidouros de água e, quanto aos campos de golfe, só agora se começa a projetar o uso de águas tratadas para a rega (ainda estou para perceber quem vai pagar a construção das condutas que levarão essas águas até aos campos de golfe, mas "cheira-me" que será o contribuinte. Na atualidade, das dezenas que existem, apenas o dos Salgados utiliza água tratada para a rega). E que dizer das apostas feitas no domínio da agricultura, de longe o maior consumidor de água?! Numa das zonas mais secas do país, aposta-se em culturas tropicais, como o abacate...
2º) Há barragens, como a da Bravura, com significativas perdas de água...e não será certamente a única. Dos municípios algarvios, que eu conheça, apenas um, o de Silves, tem apostado em tecnologias para deteção de fugas subterrâneas nas condutas. A maior parte das pessoas só pensa neste problema quando estas fugas se tornam visíveis à superfície, mas há hectolitros e mais hectolitros cúbicos que se perdem, em fugas nos sistemas de abastecimento, até serem detetados. A soma de todas estas perdas, de todo este desperdício diário, agora mesmo enquanto estou a escrever estas linhas, encheria quantas barragens?
3º) É claro que o país não é só o Algarve, mas há uma cultura de desleixo, de desperdício, de uso ineficiente da água (da energia e de outros recursos, a começar pelo dinheiro dos nossos impostos, enfim, da riqueza que o país produz,...) que nos empobrece todos os dias; e a solução mágica são sempre as grandes obras de betão.
4º) Há estudos que justifiquem a construção dessas barragens? Há estudos que comprovem a sustentabilidade dessas barragens, ou seja, e se este ano for apenas uma exceção que não apaga a realidade da diminuição da precipitação no sul de Portugal, haverá chuva para encher esses "alquevas"?! Ou bastará um ano como este, que talvez ocorra uma vez por década, para os encher?! Vamos construir barragens, incentivados por um ano de fartura, para depois as vermos ficarem a 20% nos anos seguintes? Quantas barragens são necessárias para tornar sustentável a "algarvização" do litoral de Grândola até Tróia?
5º) Por último, a destruição da biodiversidade provocada pela construção destas estruturas, tem impactos graves no próprio ser humano, estamos a falar de custos económicos, não é apenas uma questão de proteger as "plantinhas" e os "animais". A construção destas estruturas, por exemplo, também trava as dinâmicas sedimentares, com impactos na deposição de areias na costa com todos os efeitos ambientais e económicos decorrentes deste fenómeno.
6º) Obviamente que precisamos de barragens! Precisamos de "algumas" barragens, não podemos ter todos os cursos de água bloqueados por barragens, muito menos por mega-barragens. Precisamos isso sim, na água, como noutros recursos, de ter uma cultura de responsabilidade, de exigência, de premiar quem usa os recursos de forma eficiente e de penalizar quem os desperdiça. Precisamos de ter uma estratégia...de momento, não temos nada, apenas rezamos, a cada final de Verão, para que o ano hidrológico seguinte nos tire da seca crónica.